14 de agosto de 2026
Dos insultos e negócios
STEFAN ŠALEJ
Como a troca de ofensas entre presidentes vem custando caro aos negócios do Brasil — e por que a diplomacia empresarial é a saída
Parece que o que ensinamos às nossas filhas, filhos, netas e netos não vale para os presidentes de nossos países. Não fale palavra feia. Mas presidente pode?
O fato é que estamos assistindo perplexos, já há bastante tempo, a uma troca de insultos e falta de civilidade entre presidentes — no nosso caso, entre Brasil e Argentina especificamente — que passam dos limites da civilidade das populações dos dois países. Nós, os cidadãos, não somos assim. E mesmo que discordemos em futebol, onde não há limites, nos respeitamos e não demos procuração aos presidentes para se xingarem e expressarem suas opiniões privadas, verdadeiras ou não, para prejudicar nada mais, nada menos, do que os nossos negócios, entre outros.
Vivemos em um período em que as personalidades presidenciais do eixo Brasil–Argentina–Estados Unidos falam e dizem umas às outras o que querem. Claro que a parte ofendida publicamente tem que reagir. Interessante é que, no passado, as ruas ganhavam esses protestos, mas hoje são as redes sociais os elementos que contam. Estudantes na rua queimando bandeiras, já era. E o operário, hoje, cuida do seu emprego, pouco se lixando se o presidente foi chamado de ladrão. O nacionalismo mudou.
DOIS PARCEIROS, DOIS CONFLITOS
O fato é que o Brasil está em conflito direto com dois de nossos maiores parceiros: EUA e Argentina. No caso americano, tudo indica que as novas tarifas vão ficar e que a discussão, sabiamente orientada pelo Itamaraty, passou para a OMC — e, no Brasil, o assunto virou parte do debate eleitoral. Mas é bom lembrar os nomes com que nossa Primeira-Dama chamou o empresário número um do mundo, Elon Musk. Ela esqueceu; ele, jamais.
O Brasil — ou seja, nossos políticos — deveria olhar, antes de abrir a boca, para os interesses do país. Cala-te, Magda. Com a Argentina temos uma aliança industrial que nos beneficia: exportamos produtos industrializados que a China não compra, além de investimentos. Sem falar em turismo. Especificamente em toda a América Latina, temos superávit na balança comercial — 14 bilhões de dólares — e mais de 30 bilhões de investimentos.
AUSÊNCIAS QUE CUSTAM CARO
Nosso presidente, em dois anos, só foi à posse de seus companheiros no México e no Uruguai; não foi à assinatura do acordo Mercosul–UE, nem à posse de outros oito presidentes. Divergências ideológicas não impediram, no regime militar, relações com a União Soviética, a China e outros. Nossos vizinhos também investem no Brasil — veja o Chile, 20 bilhões de dólares. Nossos bancos estão formando uma rede financeira na América Latina.
Já passamos maus bocados no mundo com o comportamento estranho do governo anterior. E agora perdemos todo o capital positivo que tínhamos como país — sem falar no futebol —, com excesso verbal e falta de racionalidade na defesa de nossos interesses. Essas confusões a que assistimos prejudicam nossos negócios de hoje e de amanhã. A esperança é que a tradição da diplomacia brasileira prevaleça, não só no trato com o exterior, mas que consiga também baixar a bola por aqui.
Políticos, no mundo inteiro, adoram conflitos com inimigos externos — imaginários ou reais. Há certo machismo nisso. Mas brigar com outros países pode unir um país dividido e aumentar o nacionalismo para efeitos eleitorais. E políticos vão; as empresas ficam, com as consequências e os prejuízos.
Se o empresariado espera que a bola vai baixar pela vontade dos políticos, não vai.
A SAÍDA: DIPLOMACIA EMPRESARIAL
Uma das soluções mais usadas é a “diplomacia empresarial”. No Brasil, ajudou muito a desarmar recentemente o problema das tarifas com os EUA, mas também foi importante no passado o MEBEF (Mercosul-EU Business Forum) e outras iniciativas. Os tempos de hoje exigem canais de diálogo abertos, uma estratégia empresarial de atuação nessa área — incluindo câmaras de comércio brasileiras no exterior, missões, representação de entidades empresariais e mais.
SALDO COMERCIAL DO BRASIL COM A AMÉRICA DO SUL — 2025
|
País |
Saldo comercial 2025 |
Situação |
|
🇦🇷 Argentina |
≈ +US$ 4,0 bi |
Superávit |
|
🇨🇱 Chile |
≈ +US$ 2,5 bi |
Superávit |
|
🇵🇾 Paraguai |
≈ +US$ 2,0 bi |
Superávit |
|
🇺🇾 Uruguai |
≈ +US$ 1,5 bi |
Superávit |
|
🇨🇴 Colômbia |
≈ +US$ 1,5 bi |
Superávit |
|
🇵🇪 Peru |
≈ +US$ 0,8 bi |
Superávit |
|
🇪🇨 Equador |
≈ +US$ 0,7 bi |
Superávit |
|
🇻🇪 Venezuela |
+US$ 0,489 bi |
Superávit |
|
🇬🇾 Guiana |
≈ +US$ 0,4 bi |
Superávit |
|
🇸🇷 Suriname |
≈ +US$ 0,1 bi |
Superávit |
|
🇧🇴 Bolívia |
≈ 0,0 bi |
Equilíbrio |
|
TOTAL AMÉRICA DO SUL |
≈ +US$ 14 bi |
Superávit |
Fonte: dados compilados pelo autor. Valores aproximados em bilhões de dólares.
INVESTIMENTOS E INTEGRAÇÃO ECONÔMICA POR PAÍS
|
País |
Brasil → país (2024) |
País → Brasil (2024) |
Comércio Brasil–país 2025 |
Saldo comercial |
Integração |
|
🇦🇷 Argentina |
8,63 bi |
~1,4 bi |
~US$ 31 bi |
+ |
★★★★★ |
|
🇨🇱 Chile |
5,03 bi |
~19,6 bi |
~US$ 11–12 bi |
+ |
★★★★★ |
|
🇺🇾 Uruguai |
5,92 bi |
~9,0 bi |
~US$ 6 bi |
+ |
★★★★ |
|
🇵🇾 Paraguai |
1,76 bi |
n/d |
~US$ 7–8 bi |
+ |
★★★★★ |
|
🇨🇴 Colômbia |
0,76 bi |
~2,2 bi |
~US$ 6–7 bi |
+ |
★★★★ |
|
🇵🇪 Peru |
1,02 bi |
~0,4 bi |
~US$ 4–5 bi |
+ |
★★★★ |
|
🇻🇪 Venezuela |
0,91 bi |
n/d |
~US$ 1,2 bi |
+0,49 bi |
★★★ |
|
🇧🇴 Bolívia |
0,11 bi |
n/d |
~US$ 2,6 bi |
~0 |
★★★ |
|
🇪🇨 Equador |
0,26 bi |
n/d |
~US$ 1,5 bi |
+ |
★★★ |
|
🇬🇾 Guiana |
n/d |
n/d |
~US$ 1 bi |
+ |
★★★★ |
|
🇸🇷 Suriname |
n/d |
n/d |
<US$ 0,5 bi |
+ |
— |
⭐ Escala de integração econômica de 1 a 5 estrelas, segundo avaliação do autor. n/d = dado não disponível.
POSSES PRESIDENCIAIS NA AMÉRICA LATINA — QUEM REPRESENTOU O BRASIL
|
País |
Presidente empossado |
Data |
Brasil representado por |
Nível |
|
🇦🇷 Argentina |
Javier Milei |
10/12/2023 |
Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores |
Ministro |
|
🇪🇨 Equador |
Daniel Noboa |
23/11/2023 |
Geraldo Alckmin, vice-presidente |
Vice-presidente |
|
🇬🇹 Guatemala |
Bernardo Arévalo |
15/01/2024 |
Geraldo Alckmin, vice-presidente |
Vice-presidente |
|
🇸🇻 El Salvador |
Nayib Bukele — novo mandato |
01/06/2024 |
Luiz Paulo Teixeira, ministro do Desenvolvimento Agrário |
Ministro |
|
🇵🇦 Panamá |
José Raúl Mulino |
01/07/2024 |
Geraldo Alckmin, vice-presidente |
Vice-presidente |
|
🇩🇴 Rep. Dominicana |
Luis Abinader — novo mandato |
16/08/2024 |
Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores |
Ministro |
|
🇲🇽 México |
Claudia Sheinbaum |
01/10/2024 |
Luiz Inácio Lula da Silva |
Presidente |
|
🇺🇾 Uruguai |
Yamandú Orsi |
01/03/2025 |
Luiz Inácio Lula da Silva |
Presidente |
|
🇸🇷 Suriname |
Jennifer Geerlings-Simons |
16/07/2025 |
Márcia Lopes, ministra das Mulheres |
Ministra |
|
🇧🇴 Bolívia |
Rodrigo Paz |
08/11/2025 |
Geraldo Alckmin, vice-presidente |
Vice-presidente |
Fonte: dados compilados pelo autor.
STEFAN SALEJ
(Stefan Bogdan Barenboim Šalej)
14 de agosto de 2026
Publicado em:
Diário do Comércio — Giro pelo Mundo
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