Sunday, 17 February 2019

Do sinal amarelo para os investimentos em Minas



DO SINAL AMARELO PARA INVESTIMENTOS 

O que em Minas, e em especial suas elites econômicas, menos querem ouvir é que os desastres do setor de mineração têm uma repercussão maior do que elas acham. A ausência do atual presidente da maior entidade industrial do estado, não voltando do exterior para liderar a resposta do setor industrial ao acidente em Brumadinho, mostra como as pessoas que são responsáveis pelo desenvolvimento do estado reagem: veja se passa e esqueçamos o assunto. Memória curta, é o que todos estão querendo. Vamos olhar para o futuro, esqueça o passado ou, como um gênio da liderança industrial disse: temos que ser racionais neste momento.

Uma coisa é como as elites mineiras e a direção da Vale querem que isso seja visto. Outra coisa é a dor das famílias. E o terceiro item nessa percepção é como o mundo nos vê.

As empresas hoje têm acionistas estrangeiros, ou diretos ou através  de fundos de investimentos. Isso vale para a MRV, Kroton, Localiza, CEMIG, Anglo American, Nestlé, Copasa, FCA, e assim adiante. E a maioria desses fundos têm regras de governança rígidas, em especial quanto ao meio ambiente. Essas empresas inclusive cumprem as regras. Mas, o acidente em Brumadinho espalhou a dúvida sobre como o estado de Minas administra essas questões. 

E os acionistas e as gestoras desses fundos já começaram a questionar se a lama e os assassinatos lá atingiram empresas e áreas onde atuam. Ninguém quer estar associado a empresas e sistemas que provocam esse tipo de desastres. É pura ilusão achar que Brumadinho como Mariana, não vão afetar novos investimentos no estado. Ao invés de virem investidores responsáveis, o Estado vai abrir o caixa, piorando a situação, aos mais depredadores e usurpadores dos cofres públicos.

Uns primeiros sinais de como a imagem de Minas destruída tem afetado já aconteceram. Já começam a ser cancelados novos investimentos na área de agronegócios. E não se iludam porque que na decisão sobre a nova fábrica de motores da FCA em Betim isso vai pesar. 
O sinal amarelo acendeu.

A solução não passa por melhor comunicação, veja o desastre que é a comunicação da Vale, mas por demonstração clara e inequívoca do chefe do governo mineiro. Aliás, como o novo presidente da CEMIG chamou o governador, de que o passado não vai se repetir e que o futuro é qual mesmo? Só a autoridade moral e a liderança do governador podem garantir que haverá mudança e que em Minas o meio ambiente terá um novo tempo. Fazer isso, com o secretário da área do governo anterior perambulando pelos corredores do mal feito do novo governo e apoiado pelos ilustres industriais, será difícil.

O governo tem poucas opções e se, não mudar de fato o paradigma de desenvolvimento e mostrar isso aos investidores, nem o novo presidente do BDMG trazido da China vai resolver. Não se trata de imagem, mas de mudança de fatos que engalanaram e ensanguentaram o retrato de Minas.

Com a palavra Governador.

Stefan Salej
Ex Presidente do SEBRAE Minas e da FIEMG
Vice Presidente do Conselho do Comércio Exterior da FIESP
Coordenador adjunto do GACINT Grupo de acompanhamento da conjuntura internacional da USP 

Monday, 11 February 2019

A



DA BÚSSOLA MORAL E ÉTICA 

Mortes e mortos. Famílias que perderam filhos, maridos, esposas, destruídas para sempre. A dor que não desaparece. A dor que fica mesmo recompondo a vida.

Brumadinho. Ceará. Chuvas no Rio. Tragédia da Raça Rubro-Negra no Rio de Janeiro. O campeão mundial de assassinatos e de acidentes de trânsito. E de acidentes de trabalho. E a  segunda maior população carcerária do mundo, sem falar em condições sub-humanas em que estão nossas prisões.

Para alguns, eventualmente mais religiosos, é castigo de Deus. Pode ser.

Mas, em tudo isso tem a mão do homem, da pessoa humana. Aqui cabe bem a pergunta, que país é esse, que gente somos.

Os desastres de Mariana e Brumadinho já foram muito debatidos e suas consequências ainda não terminaram . Onde prevaleceu a ganância sobre a segurança das pessoas, continua prevalecendo o interesse financeiro sobre a solução para as famílias e a sociedade. Responda  você mesmo, sem se deixar influenciar pelas ações de comunicação liderados pelo genial mago da comunicação brasileira Nizan Guanaes, que assessora a Vale e tenta nos convencer de que tudo isso não tem importância porque vamos continuar exportando minério e tendo dividendos e valorização das ações da empresa.

No caso dos garotos do Flamengo, é impressionante a como maior parte dos comentários, até do porteiro do meu prédio, é sobre quanto perderam o clube e os jogadores, além dos intermediários, já que todos eles eram talentos que podiam ter contratos no exterior. Escravos esportivos, ilusões e sonhos interrompidos dos dirigentes e famílias. Será que as famílias não sabiam em que condições eles vivia?  “Aguente, início da vida é assim. Veja hoje como está o Neymar. Você vai chegar lá.” Dos dirigentes do clube e até dos torcedores. E quem será culpado pelo assassinato desses jovens? Quem tem coragem de dizer na cara dos dirigentes do clube, ou dos dirigentes das empresas envolvidas em Brumadinho e Mariana, que ajudaram a assassinar pessoas?

Porque foi a negligência deles que provocou os acidentes.
E isso acontece com as enchentes pelo país afora, onde os administradores públicos e os políticos põem a culpa em São Pedro, há sim excepcionalidades, mas não são capazes de fazer  obras decentes e duradouras. Aliás, por outro lado, quando fazem também o eleitorado na maioria das vezes não reconhece e não os elege. É um círculo vicioso da política brasileira que beneficia a enganação, o desleixo e a irresponsabilidade.

Com milhares de exemplos que sempre levam ao desdém da nossa sociedade com a vida humana, a pergunta que se coloca  é quando as  elites brasileiras, sejam políticas, religiosas, econômicas ou sociais,  vão liderar as mudanças para que isso não aconteça mais. Será que novas gerações estão prontas dentro de regime democrático para liderar essas mudanças? Ou vamos continuar sem nenhuma bússola moral e ética marchando para um abismo de onde a volta para uma sociedade pelo menos decente e respeitosa com a vida será quase que impossível.

Insistir que essa mudança pode começar pelas lideranças empresárias faz parte do meu credo pessoal, que é possível e deve ser feito. Mas, a esperança é a última que morre.

Stefan Salej
Ex Presidente do SEBRAE Minas e da FIEMG
Vice-Presidente do Conselho do Comércio Exterior da FIESP
Coordenador adjunto do GACINT Grupo de acompanhamento de conjuntura internacional da USP

Sunday, 3 February 2019

Da responsabilidade empresarial


Da responsabilidade empresarial 

O episódio trágico de Brumadinho abriu  mais uma vez a discussão sobre a responsabilidade social, ambiental, e econômica das empresas e dos empresários. A versão, no caso específico da Vale, é que a empresa é um exemplo de responsabilidade social e ambiental. O fato é que nos últimos três  anos morreram em acidentes mais de 120 pessoas nas instalações da empresa. E o fato prevalece sobre a versão.

A questão é qual o grau de confiabilidade tem a tal “responsabilidade social corporativa (RSC)” após os fatos que mostram que os programas são falhos e funcionam só enquanto não acontecem desastres. O assunto não é novo no mundo empresarial e um dos primeiros acidentes ocorreu na Índia, quando vazou líquido tóxico e matou muita gente. E a esse acidente se seguiram vários e empresas foram sempre punidas e suas imagens bem arranhadas. Há empresas alemães que hoje são grandes campeões de ética,  que colaboraram com o governo nazista no genocídio dos seis milhões de judeus.

Aqui no Brasil, inclusive nos casos mais recentes, não temos quem verifique, além da imprensa e de instituições contaminadas, a veracidade da RSC. E então se acredita em quem tem mais poder na mídia, que é melhor. Os últimos acontecimentos terão que mudar os critérios, inclusive com maior adoção de normas internacionais nessa área, com a devida cerificação. Mas, aí também tem problema, já que um dos maiores certificadores é exatamente a empresa alemã TUV, que atestou que a barragem de Brumadinho estava perfeita.

Uma outra questão é o papel das entidades empresariais. Em Minas, e em especial na atual gestão da FIEMG, discute-se muito a defesa da indústria. De fato, há muito a se fazer na defesa das parcerias da indústria com a sociedade, onde inclusive faltam iniciativas e projetos. Mas, como defender os próprios mineradores que no caso específico quebraram Minas Gerais e provocaram tantas mortes? Não há como negar que a opção de desenvolvimento a favor do empresariado mineral, em conjunto com os políticos, foi o que prevaleceu em Minas desde a descoberta do Brasil. Essa ilusão de riqueza e sua exploração, muito mais a favor dos exploradores do que da nação como um todo, foi poucas vezes discutida. Minas com sua elite empresarial e política preferiu leniência do que uma transformação de sua economia.

Acabaram com a melhor escola de engenharia de Minas do Brasil. A FIEMG protegeu, com entidades como o IBRAM e os respectivos sindicatos do setor, o gangsterismo em detrimento do bem comum, inclusive empresarial. E junto com políticos que não são capazes de encontrar outras fórmulas para o desenvolvimento, criou-se uma ciranda que levou, com um sistema judicial omisso e parceiro da ciranda, às consequências de quebra de Minas e a mortes que todos vão ter nas suas consciências. A impunidade do passado gerou os acontecimentos atuais. 

Acordar para mudar o paradigma de desenvolvimento com os cadáveres que o sistema produziu é muito triste. Mas, absolutamente necessário. E neste momento as entidades empresariais têm que ter proposta de mudança  porque o que aconteceu está na conta de todos e cada um.

Thursday, 31 January 2019

DA CARACAS CONFUSA


DE CARACAS CONFUSA

As notícias do desastre ecológico em Brumadinho, MG, e a tragédia humana que o acompanha, colocaram os acontecimentos em Caracas, capital da Venezuela, no segundo plano aos olhos do leitor brasileiro. Mas os acontecimentos de lá, como os de cá, ficarão na história dos dois países. Na Venezuela também se perdem vidas, por razões diferentes, e também estamos tratando de um país rico em recursos naturais, em especial petróleo e minério de ferro. Enquanto  em Brumadinho a luta é dos brasileiros contra brasileiros, na Venezuela e na sua capital, Caracas, a situação é bem mais complexa.

A Venezuela foi na história, segundo o Embaixador Rubens Ricupero, a nação mais belicosa de todos os países latino-americanos. Lá, sempre se resolvia com espada, e não com negociação, o conflito. O Coronel Chávez, que com um golpe tomou conta do país no início do novo século, montou um modelo populista político de divisão de poder com as forças armadas. Algo nada novo, porque o modelo político de vários socialistas, como Tito, era o mesmo. No caso da Venezuela, os militares detêm o poder de fato com o domínio dos principais negócios do estado, legais e ilegais: a empresa petrolífera, o narcotráfico, o controle do câmbio e as transações com o exterior.

E aí tem outra curiosidade venezuelana: seu principal parceiro econômico são os Estados Unidos, contra os quais Chávez bravejava na ONU com a cruz na mão. Os EUA compram 500 mil barris de petróleo por dia. Na área de segurança interna, a maior parceria é com Cuba. Na área de armamentos, com a Rússia, na área de novo comércio, inclusive petróleo e empréstimos, é com a China. Sem falar da União Europeia, cujos interesses econômicos ultrapassam a sua capacidade de absorver a dívida. E falando em dívida, a Venezuela deve a todos, inclusive mais de 55 bilhões de dólares ao Brasil.

Verdadeira feijoada política. Os interesses tão diversos e múltiplos estão levando a manter Maduro no poder, independentemente do custo para o seu povo. O novo  presidente, Guaido, reconhecido pelo Brasil, Estados Unidos, Colômbia e mais uma dúzia de países, é presidente no país sem o país. Ou seja, a Venezuela tem dois presidentes, um povo faminto nas ruas e militares mantendo o poder.
Na área militar, pode-se repetir o clássico latino-americano, inclusive o que levou Chávez ao poder: jovens oficiais apoiados pela população e soldados famintos tiram os corruptos generais do poder. E apoiam o jovem presidente Guaido e, quem sabe, convocam novas eleições. Maduro também pode convocar novas eleições. E se ele ganhar de novo, fraudando ou não, como fica a situação do país?

O destino do governo Maduro também será selado se os EUA deixarem de comprar ou pagar o petróleo que importam. Está lá até agora porque os Estados Unidos sempre mantiveram um relação comercial com ele. Em resumo, tem-se que achar uma solução, torcendo para que seja pacífica e satisfatória para todos. E isso efetivamente será muito, muito difícil. Troca pacífica do governo é só com eleição, fora disso, corre sangue.


Sunday, 20 January 2019

DA CHINA AMIGA, INIMIGA E PARCEIRA


DA CHINA AMIGA, INIMIGA E PARCEIRA

Não vamos brincar com a China. Eles sabem o que querem, quando e como. Podem ser impacientes num momento, mas não são a longo prazo. E não improvisam. Tudo é estudado, planejado e organizado.

Por isso, a viagem dos incautos futuros parlamentares do partido do Presidente da República, a convite e, pelo que consta, com despesas pagas, da maior empresa  mundial de tecnologia de telecomunicações, Huawei, nada tem de improvisado, a não ser os parceiros brasileiros. Os chineses meteram a faca no coração da política brasileira, no segundo maior partido no Congresso Nacional. Criaram, como os próprios deputados gritando de Beijing disseram, um grupo de China no seio do partido que governa o Brasil. E voltaram, após os ataques que receberam, maiores amigos do regime, da tecnologia e da empresa, no Brasil. E os chineses rindo à toa, porque tudo isso custou alguns centenas de milhares de dólares, muito mais barato do que qualquer propina que estariam dispostos a pagar. Ganhos políticos incomensuráveis, além de comerciais. Jogada de mestre jamais vista por qualquer outro país.

Nesse meio tempo, a China também anunciou que vai comprar mais soja nos Estados Unidos, para aliviar o conflito comercial, e menos no Brasil. Aliás, a pergunta é, onde nos encaixamos no crescimento da China, que está saindo de potência emergente para potência que forma com os Estados Unidos o mundo bipolar? Haverá espaço na nossa política para contemporização com os dois lados, enquanto cada um vai exigir, para obtermos reciprocidade, a fidelidade?

Nós achamos que entendemos bem os Estados Unidos, onde há 18 centros de estudos sobre Brasil, sendo que no Brasil tem um sobre os Estados Unidos.

E de China? Está claro nas nossas políticas até quando a China vai precisar de nossas matérias primas e de nossos produtos  agrícolas? E, como a China vive de exportação, está claro que só vamos vender se permitirmos sem restrições a entrada e saída de capitais chineses e entendermos que os tempos da Feira do Paraguai, que vendia produtos chineses de má qualidade, acabou? Os chineses são hoje lideres em tecnologia, inteligência artificial, internet, telecomunicações, automatização industrial. É esse o mercado que eles querem e de que precisam para comprar soja e minério de ferro.

E aí entra de novo a viagem dos incautos. Huawei é líder no segmento de 5 G, tecnologia mais avançada em telecomunicações. E líder em sistemas de segurança, como vigilância e ciber-segurança. Implementaram isso na Venezuela e no Equador. E estão tendo limitações para operar em vários países. E aí, no Brasil, nos vamos adotar a tecnologia deles apesar dos protestos dos Estados Unidos?

A China representa um modelo político que é diferente do modelo dos Estados Unidos. Onde esses dois modelos conflitam na liderança mundial e onde ficamos nós com pragmatismo comercial, tentando salvar a pele, é outra questão. Sem dúvida, se não tivermos claros os nossos objetivos, seremos simplesmente peão no jogo de xadrez, agora de novas disputas.

Friday, 18 January 2019

DOS MUROS E MURROS


DOS MUROS E MURROS

A notícia das últimas três semanas é a disputa entre o Presidente  Trump e o Congresso dos Estados Unidos sobre a construção de um muro na fronteira sul, entre o México e os Estados Unidos. Uma bagatela de 20 bilhões de reais que, num orçamento de trilhões do país mais rico do mundo, não faria nenhuma diferença financeira. A disputa é outra: de um lado o Presidente, que durante a campanha prometeu o muro, e não o fez durante o pleno domínio do seu partido (Republicano) no Congresso, e do outro lado o Congresso recém empossado, com maioria democrata, que acha o muro desnecessário. E essa disputa paralisou os serviços do governo. Mais de 800 mil funcionários públicos estão em casa, sem trabalhar e sem receber. Os serviços essenciais, como de segurança nos aeroportos e controle de voos, estão ameaçados. Os funcionários, sem receber, não pagam as contas, nem de alimentação, nem prestações da casa. Em resumo, o mais longo período da história norte-americana de fechamento do governo, isso inclui os serviços no exterior, como emissão de vistos, não tem data para terminar, mas tem que terminar porque está, junto com a guerra comercial com China, já afetando o crescimento da economia norte-americana. E quando isso acontece, ninguém nos Estados Unidos come vidro e nem rasga dinheiro.

Mas,  o exemplo do muro, alias já construído em várias partes da fronteira entre México e Estados Unidos, levanta a questão de muros que existem neste nosso mundo. Se não levarmos em consideração a charge onde, na Muralha da China, o Presidente Trump pergunta ao colega chinês Xi se ele também tem problemas com os mexicanos, o fato é que a construção de muros para proteger os países não tem nada de novo na história da humanidade. Hoje atração turística, a Muralha da China foi construída no século VII a.c. contra a invasão de tribos da Eurásia e, em especial, invasões dos mongóis.

O mais famoso muro do século passado foi o Muro de Berlim, dividindo as duas Alemanha, do Leste e Oeste, artificialmente construídas após a Segunda Guerra Mundial. E a queda de Muro de Berlim, hoje capital da Alemanha reunificada, foi a queda dos regimes socialistas do Leste Europeu, começando com a própria União Soviética.

Há vários  tipos de muros que nos rodeiam. No Brasil há comunidades onde as pessoas, por questões de segurança, criam barreiras ou até muros que os separam do resto. Sejam de um lado as de favelas como o Morro do Alemão, no Rio de Janeiro, ou as  de Alphaville dos ricos na grande São Paulo. São muros que representam a exclusão ou o isolamento social. São verdadeiros guetos, aliás estes possuíam muros desde que foram inventados para separar os judeus dos cristãos no século XV, onde as pessoas se isolam dos outros.

O dilema de nos fecharmos entre muros ou vivermos mais uns com os outros apareceu  com toda força nas sociedades de hoje. Mais abertura ou mais fechamento. E o Brasil, mesmo sem construir muros nas fronteiras, vive esse dilema, com toda a força que a democracia que temos nos impõe.

Stefan Salej

Sunday, 6 January 2019

DA IMPORTÂNCIA DA VENEZUELA


DA IMPORTÂNCIA DA VENEZUELA

Definitivamente, o Brasil no momento só tem um problema grave na sua política externa: a Venezuela. Por isso é de suma importância a viagem do novo Chanceler Embaixador Ernesto Araújo, um dia depois de tomar posse e encontrar o Secretário de Estado dos Estados Unidos, para o encontro do Grupo de Lima, 14 países do continente que procuram uma solução para a situação venezuelana. E essa situação tem data certa para ser ou não resolvida:10 de janeiro, quando começa o novo mandato do atual Presidente Maduro.

A situação venezuelana tem o nome do seu padrinho e sustentáculo cravado em letras douradas: a política externa do governo do PT. Chávez, o presidente que introduziu o bolivarismo, um socialismo que ele intitulava Socialismo do Século 21, apareceu já no governo FHC. Enquanto os europeus estranhavam as atitudes do exótico coronel, FHC tolerava e dizia que podia controlar eventuais excessos. Em 2002, com a entrada de Lula no governo brasileiro, iniciou-se um golpe de estado que praticamente derrubou Chávez e seu socialismo. Mas, sob coordenação do então Chanceler brasileiro Celso Amorim e sob os auspícios do Assessor Internacional do Presidente Lula, Marco Aurélio Garcia, fizeram um grupo de amigos da Venezuela que abafou o golpe e manteve Chávez no poder. Sem essa intervenção brasileira, não teríamos  nem Chávez, nem Maduro e nem caos e crise humanitária na Venezuela.

Com a bonança dos preços de petróleo, o governo Chávez teve dinheiro para gastar à vontade e atendeu bem todos os interesses. Deu aos militares a área do narcotráfico, bem descritos em todas as séries sobre narcos no Netflix, compras de equipamentos militares do mundo inteiro e mais o controle da base da economia venezuelana: petróleo e sua empresa PDVSA. Assim, criou-se um modelo político-militar que empurrou o país para a ditadura e o caos social, usando instrumentos aparentes de democracia, como eleições manipuladas e opositores presos, para se manter no poder.

O Brasil, com suas empreiteiras corruptas, aliou-se a esse modelo e deu apoio político à sua expansão, através da Aliança Bolivariana na América Latina. Sobrepôs-se aos Estados Unidos e à Europa leniente e garantiu Chávez e depois Maduro no poder. Assim, a Venezuela hoje deve ao Brasil incobráveis 55 bilhões de dólares.

A população brasileira só se deu conta do problema com a chegada de refugiados venezuelanos a Roraima. Mas, este é o menor dos problemas. Pior é a aliança da Venezuela com a Rússia e a China, que confronta diretamente a esfera de influência norte-americana no continente.

E, sem dúvida, a Declaração de Lima, que condena o regime de Maduro e prevê sanções, menciona pela primeira vez com clareza as pretensões venezuelanas sobre o território da Guiana. E nada melhor para um regime podre e falido do que reunir seu povo ao provocar um conflito armado. Maduro e seus militares precisam de algo mais para se manter no poder e um conflito com a Guiana, rica em recursos naturais, pode oferecer essa oportunidade.

O problema é que isso acontece na nossa fronteira. E o conflito militar não seria um conflito regional, mas, de um lado Venezuela, China e Rússia, e de outro lado Brasil e Estados Unidos. Uma loucura que está sendo evitada pela diplomacia brasileira, mas que está longe de ser irreal. Uma herança da política externa dos governos petistas das mais malditas.