Thursday, 1 August 2019

DA GUERRA COMERCIAL E BRASIL

Estamos no meio de uma guerra comercial que se espalha pelo mundo e chegou nestes dias com toda a artilharia disparando seus tiros para Brasil. E um dos foguetes disparados atingiu as asas do acordo entre o MERCOSUL e a União Europeia, tão celebrado ainda na semana passada. Aliás, a pergunta é se o tiro foi fatal e o acordo morreu ou só atingiu o voo inicial do avião chamado acordo.

O fato é que os europeus, que neste momento enfrentam um calor infernal nas suas praias e na política, com o novo Primeiro Ministro britânico, a saída da Ângela Merkel do governo da Alemanha, a mudança da equipe da União Europeia e do Banco Central, não têm muito tato ao tratar com latino-americanos em geral e em especial com o Brasil. A insistência em que o acordo, ora em exame jurídico e ainda não assinado pelos presidentes dos países e pela Comissão da UE, só será validado se o Brasil cumprir o acordo climático de Paris, deu brecha para o Brasil procurar, sob pressão, outras alternativas. Chegou-se a um acordo possível, que está longe longe de ser excelente. O Brasil cedeu muito para fazer o acordo. E aí, chamar fora do acordo o Brasil para cumprir o que está cumprindo, ou mais do que o acordado, foi esticar a corda de forma inaceitável.

O episódio com Chanceler da França, não recebido pelo Presidente Bolsonaro que foi cortar ostensivamente cabelo e dizer que não tinha agenda, foi sinal claro, mas não lido pelos europeus, de que o Brasil não vai se deixar amedrontar com ameaças francesas sobre a Amazônia e o meio ambiente. À medida que a pressão europeia foi crescendo, especialmente a da Alemanha, com seu Partido Verde, que hoje tem muita força no Parlamento Europeu, também a resposta brasileira foi crescendo de tom. A ação agressiva europeia provocou a reação agressiva brasileira.

Mas aí os europeus avaliaram muito mal as opções que o Brasil tem. Na mesma semana da visita do Chanceler francês, veio ao Brasil o Secretário de Comércio dos Estados Unidos, Wilbur Ross. E os americanos que veem no acordo entre o MERCOSUL e a UE uma real ameaça aos seus negócios na região, aproveitaram a janela de oportunidade para oferecer uma real possibilidade de fazer acordo entre o MERCOSUL e os Estados Unidos. Foram perfeitos: aceitaram Eduardo Bolsonaro como Embaixador nos EUA, cumpriram a promessa de abrir as portas da OTAN para o Brasil, disseram que o acordo com a UE prejudica o acordo com os Estados Unidos e mais algumas coisas que não sabemos. Trump precisa de um acordo comercial novo e bom antes das eleições e Bolsonaro, que não aguenta ataques dos europeus, amigo do Trump e de sua política, deu essa chance. O acordo com os Estados Unidos, nosso maior concorrente no agronegócio, será menos estressante na área de meio ambiente e agrícola do que o acordo com os europeus. E certamente não vai ter oposição da Argentina, onde, se Macri não for eleito, o acordo com os europeus também dificilmente passará a ser aceito pelo novo governo. E se for reeleito, os EUA têm força para impor a sua vontade a uma Argentinas enfraquecida.

O acordo com a UE entra no banho-maria, o governo brasileiro não tem nenhuma pressa de ratificar, e o acordo com os EUA entra em fast track, linha rápida, para ser negociado. Se os europeus baixarem as exigências e entenderem que governo Bolsonaro é o que é, ainda pode haver acordo. Senão, haverá acordo só com os EUA, talvez com o Japão, Coréia do Sul, Canadá e CEFTA. O que, diga se de passagem, já é bastante para Brasil.

Jogou se o jogo dos profissionais.

Stefan Salej
Vice-Presidente do Conselho do Comercio Exterior da FIESP
Coordenador adjunto do GACINT - Grupo de acompanhamento de conjuntura internacional da USP

 

Sunday, 21 July 2019

DO ACORDO MEIO CHEIO, MEIO VAZIO

DO ACORDO MEIO CHEIO, MEIO VAZIO

Está difícil de distinguir, nas recentes discussões sobre o papel do Brasil no mundo, o joio do trigo. A centralização do debate na nomeação do novo embaixador do país nos Estados Unidos nos afasta de dois importantes atos da política externa brasileira, construídos ao longo de décadas, mas concluídos agora, que são a nossa adesão à OCDE, Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, e o acordo entre o MERCOSUL e a União Europeia. Os dois feitos terão um papel estruturante na economia e na sociedade brasileiras nas próximas décadas, que está sendo totalmente desprezado e subestimado pela sociedade econômica brasileira, e aí incluído a sociedade civil e política.

A adesão à OCDE vai requerer alguns ajustes fundamentais tanto do estado brasileiro como das empresas, independentemente de que já estamos cumprindo mais de 75 % de todos os requisitos que harmonizam as ações e politicas públicas dos 45 estados membros da organização. Mas, o perigo mora nos detalhes do restante. Não só teremos que adaptar normas e legislação, em especial na área de empresas estatais, combate à corrupção, transparência de contas públicas, entre outros, mas também o governo terá que adaptar suas políticas, por exemplo na área social, de educação, a serem monitoradas e analisadas constantemente por um organismo internacional. E não me consta que no debate sobre esses estudos e análises poderemos, como é a  tradição brasileira, contestar envoltos na bandeira nacional, dizendo que os gringos querem prejudicar o Brasil. O jogo vai exigir um comportamento analítico e de adoção de políticas públicas bem diferente do que se jogava até então.

No caso de Acordo com a União Europeia, a situação é diferente. Primeiro o acordo é fundamental para os europeus. A Europa vive do comércio internacional mais do que qualquer bloco ou país do mundo. Hoje não tem mais as colônias (com exceção dos territórios holandeses, franceses e britânicos na América Latina) onde desovava sua produção e das quais recebia matérias primas a preços aviltados. Os chineses estão pressionando a entrada na Europa com sua Rota da Seda, conquistaram a África, avançaram tecnologicamente e fizeram  alianças na Ásia que diminuem o poder dos europeus.

A UE não consegue fechar um acordo com os Estados Unidos nem acordos com países como o Japão, Vietnã e Canadá, que não são comparáveis com as vantagens  que oferece o acordo com o MERCOSUL. Este acordo apresenta um mercado de 68 bilhões de euros por ano para 60 mil empresas europeias. As exportações para o MERCOSUL geram 855 mil empregos diretos  na Europa  e mais 436 mil empregos no Brasil. As empresas europeias deixarão de pagar anualmente 4.5 bilhões de euros em taxas e tarifas, aumentando seus lucros conforme reza o acordo.

Mas, o outro lado é que conta: as empresas do MERCOSUL terão portas abertas nos mercados europeus, nos quais não se sabe se está incluída A Grã Bretanha. E ai vem a questão básica: quanto somos competitivos e em que produtos para vender mais aos europeus. Enquanto eles, que têm investidos no Brasil mais de 300 bilhões de dólares, estão se preparando para invadir o mercado brasileiro, o que está sendo feito do nosso lado, ninguém sabe.

Para sermos competitivos e aproveitarmos bem o acordo teremos que mudar o nosso modelo, cuja bandeira é o Custo Brasil, para o de um Brasil competitivo. E este retrofit da nossa economia vai exigir em primeiro lugar um projeto e recursos. E neste momento nem o setor privado tem um road map para um melhor aproveitamento do acordo  e nem o governo tem um projeto, a não ser passos políticos, para a mudança que nos espera .Os europeus estão trabalhando a mil por hora para levar vantagem e nós ainda estamos comemorando a primeira fase da conclusão do acordo.

Sunday, 9 June 2019

DA INDÚSTRIA COM E SEM FUTURO

Nesta semana as associações da indústria no Brasil comemoram o seu dia. As comemorações devem incluir um minuto de silêncio pelas 300 vitimas do estouro da barragem de Brumadinho, ou melhor, o Córrego do Feijão. E com esse minuto deve vir a reflexão sobre que indústria ainda temos e queremos como sociedade e qual será a cara da indústria nos próximos 20 anos. Provavelmente os discursos não vão abordar esses temas, mas os desafios, aos tin-tins da champanhe e do whisky, cachaça não entra, de como manter o sistema empresarial com financiamento obrigatório, e em especial, os das reformas da previdência, da desburocratização e da reforma nunca chegada, a tributária.

A indústria, mesmo atingindo hoje magros 11 % versus mais de 30 % do PIB há 25 anos, não vai fechar. Os modelos econômicos mudam com o avanço da história e nada é igual ao dia anterior. Os movimentos tecnológicos são mais profundos neste início de século, os paradigmas mudaram, e com eles mudam as matrizes econômicas. A indústria de ontem não é  mesma de hoje e nem será a de amanhã. Porque também o consumidor não é o mesmo, então o mercado também muda e a indústria tem que mudar para se adaptar ao mercado.

No Brasil, especificamente, além de todos os desafios que a indústria enfrenta nos outros lugares, estamos no momento em fase de incertezas que seguram os investimentos e levam as empresas a procurarem não  expansão, mas, essencialmente, sobrevivência. É um momento bem nocivo e difícil, mas por outro lado um dia tem que passar.

E talvez aqui podemos também olhar o copo meio cheio ou meio vazio. Sem dúvida, o momento de incerteza e crise pode levar os ousados para um novo patamar. Uma dessas ousadias é a expansão para o exterior. Há inúmeros exemplos, bem descritos pela Fundação Dom Cabral, de sucesso. Outra vertente é procurar mercados novos no imenso mercado chamado Brasil. E também surgem oportunidades de fusões mesmo entre as empresas de pequeno porte. Aliás, no Brasil faltam empresas medias que no mundo inteiro são sustentáculo de desenvolvimento e de geração de empregos.

Na área de mudanças tecnológicas, a indústria 4.0 não requer que o Senai instale um laboratório, mas que a sociedades toda mude para um patamar tecnológico diferente. Nesse capítulo as mudanças na área de infra-estrutura, leia-se energia, e de telecomunicações, são cruciais. E sem dúvida a grande mudança deve ser na área de educação, seja ela tecnológica ou não.

Quantas de nossas indústrias estão hoje prontas para esses desafios, entre os quais, como no caso do acidente de  Córrego de Feijão, se inclui a responsabilidade social e o desenvolvimento sustentável. A falta desses dois mata e destrói a sociedade e a própria indústria. E não é substituída por nenhum indicador financeiro ou tecnológico.

A indústria, hoje mais e mais integrada com serviços e outras atividades clássicas, como o agronegócio e o  comércio,  tem um espaço para sair da sobrevivência para o crescimento, especialmente se houver um ambiente  político que facilite ou pelos menos não atrapalhe a transformação industrial e seu desenvolvimento.

Para os desafios também há respostas, como as  start ups, um alto grau de empreendedorismo existente no país e um mercado cheio de oportunidades.

DA LAGOSTA IMORAL

De 210 milhões de brasileiros, quantos já comeram a lagosta e beberam vinho francês? Provavelmente 99,99 % nunca comeram lagosta e nem beberam vinho francês. A lagosta, crustáceo, pescado nas costas do Nordeste, já provocou nos idos de 70 a Guerra da Lagosta com a França e provocou o então Presidente francês, General Charles de Gaulle, que disse que o Brasil não é um país sério. A lagosta voltou nestes dias ao cardápio político quando os ilustres Ministros do Supremo Tribunal Federal encomendaram lagostas e finos vinhos franceses para as refeições destinadas a ilustres visitantes estrangeiros. Tudo dentro da ordem e da lei. Eles têm esse direito, de escolher o que querem, desejam, e daí transformar isso em necessidades. Em seguida o órgão fiscalizador da ordem jurídica executiva nacional, a Advocacia Geral da União, disse que está tudo perfeito e legal. E que sim, precisam desse tipo de comida,  nunca presente na mesa de 99.99 % dos brasileiros, para receber com dignidade as autoridades estrangeiras que visitam a mais alta corte de justiça do país.

Para começar, quem recebe os visitantes estrangeiros em nome do país, no primeiro lugar, é o nosso Ministério das Relações Exteriores, conhecido como Itamaraty, que nunca serviu nem vinhos franceses e nem lagosta. Serve sim com dignidade comida típica brasileira e vinhos brasileiros.

Segundo, nenhum visitante estrangeiro sério se impressiona, quando em visita, se é servido de comida e bebida de padrão acima do normal para o país. Ao contrário, vai perceber que somos um país do Couraçado Potemkin ou Theresien Stadt, os dois representantes da ilusão e mascaramento da realidade de dois regimes odiáveis, o soviético e o nazista. Vendemos uma imagem que nada tem que ver com a realidade do país. E é com a realidade do país em todas as suas variáveis que o visitante estrangeiro tem que lidar. Vendendo a ele a imagem de país onde se come lagosta e se bebe vinho francês às custas do erário público, você pode fazer isso se quiser com dinheiro próprio, como Presidente de banco que ganha 44 milhões por ano, você o chamou de idiota. Um idiota que você tentou enganar, escondendo os 30 milhões de desempregados, uma desordem jurídica fenomenal, uma população carcerária em condições sub-humanas, uma criminalidade das mais altas do mundo e, na continuidade, membros do judiciário que ganham, como foi noticiado nesta semana, dentro da lei, 700 salários mínimos num mês.

E mais: você não foi capaz de lhe mostrar uma realidade do país que sim pode ser uma grande potência, socialmente mais justo e igual, se esses atos e outros, baseados numa moralidade do sistema legal, não nos levarem para o buraco, mas para um desenvolvimento para todos. O fato é que nossos legisladores criaram condições de desequilíbrio moral e ético, transformado em comportamento jurídico de lagosta e vinho francês, e agora, pendurados nas poucas leis que ainda mantém alguma decência no país, não têm, junto com alguns  membros do executivo, a coragem, a  visão e o patriotismo para consertar isso. 

Antigamente diziam que tudo acaba em pizza, mas agora nem isso. Atualmente está acabando em lagosta com vinho francês. E já que estamos na área  da pesca, devemos lembrar que peixe fede pela cabeça. E os que encomendam lagosta com dinheiro público são a cabeça do peixe. Ou doutos sábios que querem repetir a Catarina, tzarina russa, dizendo que se o povo reclama e  está com fome,  que coma caviar. Ou no nosso caso, democraticamente, que todos comam lagosta com dinheiro público. Mas, ainda não podemos esquecer: se eles lá em cima podem, todos abaixo deles também podem. E aí, não há país e nem povo que aguentem.

DO POSSÍVEL E IMPOSSÍVEL ACORDO COM UNIĀO EUROPEIA

DO POSSÍVEL E  IMPOSSÍVEL ACORDO COM UNIĀO EUROPEIA

Anúncios iguais a esses que rodam os jornais nestes dias, dizendo que o acordo entre o Mercosul e a União Europeia será concluído nas próximas semanas ou meses, vimos nos últimos 25 anos de negociação tantos que já perdemos o seu número. Hoje em dia se alguém, seja quem for, tentar adivinhar quando fecha esse acordo, recomenda-se-lhe que compre um  bilhete de loteria onde tem mais chances de acertar do que quanto ao fechamento do acordo.

Se não fechou nestes 25 anos é porque há muitas razões de parte a parte para não concluírem o acordo. E o mundo mudou muito nesse período, inclusive os países que compõem os dois blocos econômicos em questão. 

A União Europeia passou de 15 para 28 países, a Grã-Bretanha estaria saindo do bloco (outra incerteza), consolidou sua moeda, o Euro e consolidou-se como uma economia forte, com divergências politicas oriundas da história do próprio continente. E avançou na área de tecnologia, assim  como se tornou o mais importante investidor estrangeiro nos países do MERCOSUL.

O MERCOSUL teve seus avanços sim. Os quatro países que o compõem mantiveram seus sistemas democráticos funcionando e suas economias, tirando a Argentina, a exceção que confirma a regra, relativamente estáveis do ponto de vista financeiro. Mas, como bloco econômico, não se integraram mais e nem dentro do espirito de fundação. Efetivamente, as expectativas e esperanças de formação de um bloco econômico e quiçá político foram infinitamente inferiores às esperanças e até resultados dos primeiros anos.

O acordo entre os dois blocos tem todo sentido e seria uma mudança fundamental no desenvolvimento das economias dos países do MERCOSUL. Agora, não pode ser um acordo onde, como tudo indica, haverá um crescimento razoável de exportações europeias e um avanço muito pequeno de nossas exportações para a UE. Nenhum estudo recente aponta com clareza os números, inclusive na criação de empregos, nos países de MERCOSUL. Enquanto nós crescemos em competitividade do agronegócio, mas de forma alguma em produtos oriundos do agro mais sofisticados, como vinhos, embutidos, lácteos etc., a Europa cresceu em tecnologia, produtos industriais com alta tecnologia, serviços e produtos alimentares. Então as trocas serão, simplificando, de uma boiada por um quilo do presunto de Parma.

As negociações empacaram nas tarifas, algo atrasado na realidade do comércio internacional do futuro, nas trocas comerciais de baixa tecnologia e nos problemas regionais europeus que geram políticas de protecionismo de fazer inveja ao Trump. Não há visão de um projeto comum de desenvolvimento entre as duas regiões que poderia beneficiar as populações, com aumento de renda e emprego. E a Europa, sublime e gananciosa, se comporta como se nós não tivéssemos alternativas.

Quando começaram as negociações, a nossa parceria com China era nula. Hoje é o nosso parceiro principal, inclusive em capitais e tecnologias. Se fecharmos acordos com a Coréia do Sul, Japão, Canadá, Suíça, e com países do Pacífico, estaremos bem encaminhados para o nosso futuro, com uma relação até mais equilibrada do que com a UE.

E tem mais, fechar acordo é difícil, implementar ainda mais. E alguém está tendo plano de implementação? Até para aprovar os acordos já feitos, o Brasil leva anos na burocracia do executivo e do Congresso. Nesse meio tempo, arrumar a casa e fortalecer o próprio MERCOSUL seria muito útil para fechar um acordo, com seja quem for, e mais eficaz.

Monday, 13 May 2019

DA DANADA DA CACHAÇA: HAVANA

DA DANADA DA CACHAÇA: HAVANA


Um dos produtos mais conhecidos entre os duzentos milhões de brasileiros é a danada da cachaça mineira. E entre marcas de quase dez mil estabelecimentos que produzem cachaça artesanal com aproximadamente 200 mil pessoas (acrescidas de mais 400 mil dos chamados empregos indiretos) em  Minas Gerais, a campeã é a Havana de Salinas.  A cachaça que expõe sua qualidade de maturação de 12 anos em barris de bálsamo também tem o preço mais elevado entre todas as marcas oferecidas. Com 75  anos de produção contínua num lugar que pouca gente conhece, longe de tudo, é sem dúvida a marca mais conhecida ou brand, como dizem hoje, de Minas no Brasil. E mais respeitada.

Explicar essa história, descrita já tantas vezes, é nas verdade explicar o que realmente é um empreendedor mineiro. Anísio Santiago, que foi o fundador, e os filhos dele, assim como os netos, seguem princípios simples de gestão: sempre produzir com qualidade, sem ambição de ganhar muito dinheiro mas sem perder no negócio, e deixar todo mundo feliz. Começando com  apreciadores do produto, funcionários, comunidade. E não pode errar porque, como diz o filho do fundador, o Sr. Geraldo Santiago, se uma garrafa for de qualidade ruim você joga fora toda a história de 75 anos.

A produção e distribuição da cachaça artesanal mineira é uma verdadeira teimosia de alguns aficionados que criaram a AMPAQ, associação de produtores de aguardente de qualidade, que controla a marca e só fez parte de um projeto integrado de desenvolvimento de Minas no final do ano 2000, quando a FIEMG fez o projeto CRESCE MINAS. Esse projeto previa o desenvolvimento do estado através de clusters e precisava de, além daqueles de alta tecnologia, como eletrônica, metal mecânico, carne vermelha, também dos que criavam emprego e tinham raiz não no investimento fora do estado ou nos generosos incentivos estaduais, mas na cultura e empreendedorismo mineiro. Aí nasceu o cluster da cachaça e o do pão de queijo.

Nesta hora em que temos na nossa frente desafios de desenvolvimento e de criação emprego que grandes investimentos em mineração e indústria não estão criando, vale a pena ver o exemplo singelo da cachaça  mineira e da Havana. Como alguém tão distante do mundo chamado desenvolvido conseguiu sobreviver 75 anos e criar uma marca tão apreciada e respeitada.

Os novos planos de desenvolvimento com investimentos de 50 bilhões  de reais nos próximos anos nas área de infra-estrutura, saúde, habitação e saneamento são necessários, mas não vão criar os empregos que o cluster da cachaça cria hoje. Além de 50 % desse investimento vir do governo, os produtos  oriundos da cultura empreendedora mineira, em geral vindos da área rural e do interior do estado, criam empregos, solidez financeira, continuidade e não dependem de governo, quebrado ou não.

A admirável saga do Anísio Santiago e seu herdeiros deve servir para uma reflexão sobre o nosso desenvolvimento. Estamos obcecados em procurar soluções grandiosas fora e desprezamos lições valiosas que temos na nossa história. Menos grandeza, mais humildade, menos Torino e mais Salinas. Menos nomes bombásticos de planos e mais realidade.

Monday, 6 May 2019

DO EMPREGO, TRABALHO E EDUCAÇÃO

DO EMPREGO, TRABALHO  E EDUCAÇÃO


Está difícil de aceitar, mas o fato é que os empregos que se perderam nos últimos anos não voltam. As mudanças nos modelos de negócios e tecnológicos requerem novas habilidades . Os tempos são outros, e não são só as novas habilidades, mas também quem fica fora do trabalho perde a habilidade de assumir um novo emprego. É simples, você dirigia um carro com marcha mecânica, por exemplo uma Kombi há anos. Depois você não dirigiu esse veículo por um ano. Aí tem vaga para motorista de van escolar modelo 2019. Toda automática, com GPS, sensores, ABS etc. Você simplesmente não sabe dirigir a nova van.

Nessa situação estão milhões de brasileiros que perderam o emprego e não estão aptos para trabalhos bem diferentes do que os que exerciam no passado. Ou seja, a formação profissional e a experiência não serão suficientes para assumir novas funções em qualquer escala hierárquica e em qualquer profissão daqui por diante. Os desafios no exercício profissional, a partir de agora, por mais simples que seja a profissão, são diferentes e temos que nos adaptar a eles.

Como? De um lado o sistema educacional brasileiro não é orientado para o mercado. Não estou dizendo o mercado de trabalho. Estou dizendo para o mercado mesmo. Ou seja, como não sabemos para onde vamos, fora umas  declarações  bombásticas sobre a economia liberal e sua clareza quanto a falta de limites, não sabemos se a economia brasileira ainda terá indústria, que está minguando, que tipo de serviços, agro e comércio vão dominar. Como não temos rumo de desenvolvimento, não podemos  ter um  sistema educacional orientado para o mercado e então não sabemos qual será o mercado de trabalho.

Claro que não faltam conjunturas sobre a aceitação de novas tecnologias, em especial robótica e inteligência  artificial, mas são casos esporádicos que não tem fundamento nenhum na área empresarial, como diretriz estratégica. Veja o caso da indústria 4.0, cuja adaptação não depende só de capital, mas de uma direção estratégica  do país, de que vamos ter menos mão de obra de baixo custo e de produtividade baixa versus sistemas inteligentes de produção com mão de obra de custo mais alto e produtividade bem mais alta.
Nesses cenários de novos desafios,  é fundamental a sociedade transmitir a ideia de permanente aperfeiçoamento profissional. Incutir no sistema educacional, ou seja em alunos e estudantes, que nunca podemos parar de estudar. O que era ontem apreender inglês, terá que ser estudar mandarim. E junto com o mandarim, novas tecnologias como  blockchain, AI, IOT etc.etc. Isso hoje, mas e amanhã? 

Nesse desafio praticamente de vida ou morte para cidadão, ou seja se não estiver preparado para um novo desafio de trabalho e emprego (que também não é mais  estruturado como no passado), a pergunta é  se estamos preparados.

Não, não estamos. Os conselhos profissionais e a justiça de trabalho nos protegem para morrermos orgulhosos na praia do mar de competitividade no qual navegamos.

O sistema educacional público está falido, sob a égide de uma gestão pública confusa e absolutamente dissociada da realidade econômica do país, com poucas  exceções que confirmam a regra. O sistema privado de ensino, inclusive de religiosos, cuida do lucro como primazia do seu objetivo.

Vamos ter que pensar em reforçar o sistema que atualiza e prepara, no ciclo de vida do cidadão, um sistema  mais ágil, mais voltado para futuro e também socialmente responsável. Não é só educar quem tem dinheiro, os MBA por exemplo, mas também as pessoas que não têm recursos, querem trabalhar e não têm oportunidade. Talvez  essa seja a grande chance do sistema S, desde que transparente, mostrar-se ágil e integrado com o mercado e com os sistemas educacionais.